Acabou o respaldo e tomei uma providência...

Este blog surgiu com uma proposta que acabou se perdendo ao longo do tempo (que foi bem curto), como eu estava afim de fazer um blog pra mim, mas achava muito trabalhoso, resolvi utilizar esse....perdão Dona Providência, mas as coisas aqui mudaram...

A comedora de sonhos

Pelo meu caminho encontrei uma menina, bem pequena dos muitos cabelos, com olhos atentos e ar de quem está sempre perdida, mas que sabe onde se encontrar. Entre saudações, risadas e conversas, decisiva ela me anunciou: - Vou comer um sonho! – E naquele momento custei a entender porque se deveria comer um sonho. Mas ela me explicou que as pessoas comiam os sonhos pra ter forças para continuar a caminhar. Mantive o meu caminho pensando ainda como os sonhos faziam parte da nossa alimentação, e comecei a reparar mais nas pessoas que passavam por mim. Quase nenhuma delas tinha o olhar da menina comedora de sonhos, mas todos, como ela, caminhavam porque comiam os sonhos. E desde aquele dia eu comecei a pensar se eu também já não havia comido muitos sonhos (os fabricados por mim e os alheios), se na presa da caminhada, se na luta da sobrevivência eu não os teria engolido assim, sem nem ao menos mastigá-los... E hoje não sei responder se algum dia comi algum, mas daqui pra frente prefiro caminhar sem comer nenhum sonho, e não querendo discordar da menina comedora, acho que minha alimentação não precisa ser feita de sonhos. Na verdade acho que os meus sonhos devem ficar sempre expostos nas prateleiras.

 

Por Providência

 

Flávia

 

Fim de tarde quente, cabeça cheia precisando colocar a cabeça em ordem...cenário ideal pra sentar a mesa de um bar e tomar “aquela” cerveja. Escolhi a dedo o local depois de passar em frente a vários lugares no caminha que fazia para casa, me arrisquei em um que ainda não conhecia...lugar bacana, bastante espaço a céu aberto e na parte reservada transmissão dos jogos do Grêmio e caça-níqueis escondidos, mas principalmente cerveja gelada!!!

  Decidido o local e a mesa onde sentar, só me restou pedir uma Polar para “abrir os caminhos”, lá pela metade da cerveja ela chega, com sua voz miúda e doçura de criança me ofereceu um pacote de alho por um real, recuso e agradeço... ela insiste...nova recusa, novo agradecimento...pergunto se tem fome, ofereço um lanche..minha vez de ouvir uma recusa e um muito obrigado (nada impede que crianças de rua tenham educação).

  Pego o copo e enquanto vou levando ele a boca, ouço um suspiro, um dos mais tristes que já ouvi, tomo um gole do líquido gelado e antes que pudesse engoli-lo...a frase..não vendi nada hoje, só querias juntar o resto do dinheiro pra comprar minha mochila......a garganta fechou de tal forma que parecia vidro quebrado o conteúdo do copo.

  A partir daí travou-se um dos melhores diálogos que já tive, talvez por que tudo que eu queria era me distrair com algo, talvez por que pessoas em condições desfavoráveis tenham que aprender desde cedo toda malandragem das ruas e independente da idade já tem toda lábia necessária para convencer os outros a ajudá-los. O certo é que Flávia (esse era seu nome) me ganhou, no alto dos seus onze anos me ganhou pela conversa, pelos olhos, pela inteligência, perspicácia, mas principalmente pela sinceridade, sem aquele velho caô  da mãe doente, do leitinho pros irmãos ou qualquer outras história que ouvimos dos pequenos pedintes...me contou detalhes da rotina da família que alem dela inclui os pais mais cinco irmãos, todos espalhando-se pela cidade vendendo alho durante o dia, porém com todas crianças freqüentando a escola ( o que deveria ser básico, mas em se tratando do nosso país não deixa de ser louvável).

  Ao longo da conversa não pude deixar de pensar nos meus três sobrinhos e de uma outra Flávia, também vendedora de rua, que também me ganhou assim como essa, mas isso é historia pra outro dia...

  Enfim, imaginem quanto custa a mochila de uma criança normal... agora tentem adivinhar o valor da mochila que Flávia queria....... ........doze reais...isso mesmo...tudo o que ela queria naquele momento era uma mochila de doze reais, que ela com a com a simplicidade e inocência peculiar das crianças definiu como “ uma daquelas bem bonitas, verdes que parecem uma calça”...sabe lá o que isso quer dizer...

  Chegamos então num acordo, até por que se eu desse todo dinheiro da mochila não teria como pagar pela cerveja que a essa altura já tinha terminado. Ela disse que tinha cinco reais faltando assim mais sete... dei o dinheiro contrariando minhas próprias convicções...porém expliquei a ela onde eu morava e disse que assim que comprasse deveria levar a mochila até minha casa a fim de me mostrar sua nova aquisição...ela comprometeu-se a fazer e assim vi seu corpo magro se distanciando enquanto pensava que se a visse novamente, ainda restaria em mim algum traço de esperança nos seres humanos, caso contrário também estaria satisfeito pois ela teria me enrolado como nunca ninguém tinha feito até hoje, e assim teria conseguido mais uns trocados para ajudar em casa, com toda sua astúcia.

  Pois saibam....minha esperança na humanidade ganhou mais uns créditos, passado alguns dias Flávia apareceu aqui...sem mochila, mas com palavras, palavras e mais palavras (que são o seu forte), disse que tinha ganhado a mochila da madrinha e com os sete reais tinha comprado um par de chinelos roxo que naquele momento enfeitavam seus pés...fiquei feliz em vê-la contente, a visita durou poucos minutos pois o dia se findava e a luz do sol já começava a dar lugar a escuridão da noite...restou a promessa de uma nova visita e um café da tarde juntos....

 

Por Respaldo

Havia, certa vez uma formiga.

Não possuía ela um nome, um nome oficial desses que os seres recebem logo ao nascer e atendem por ele até o final de suas vidas. Não, não tinha um nome...ao certo ninguém sabia por que a bendita formiga não o tinha...no começo todos estranharam, sempre que a viam passando na rua cochichavam baixinho 'lá vai a sem nome'..mas logo foram se acostumando.

Caminhava a pequena formiga distraída pela Rua Alameda das Formigas quando de repente tropeçou numa casca de banana. Tropeçou por que vinha sonolenta pela rua e ouviu certa vez que 'a pessoa com sono perde a noção de tamanho'.  Como além de ser uma formiga sem nome era também um tanto quanto obesa, assim que cruzou com a casca jogada ali no chão, desequilibro-se de forma tal que parou de pernas para o ar. Ao cair, a nossa pequena formiga sem nome avistou, bem ali em sua frente, uma caixa de fósforos roxa. Se recompôs da queda e levada por uma curiosidade inocente resolveu abrí-la, foi então que ouviu uma grande explosão: Cabum!!!

A explosão seguida de fortes estrondos e luzes piscantes, deixaram nossa formiga gorda, sem nome e agora com o pé machucado por causa da queda, meio atônita, ela foi entrando devagarinho dentro da caixa de fósforos e qual não foi a sua surpresa ao ver que na verdade aquela era apenas um esconderijo, uma espécie de entrada camuflada para uma rave de insetos!!

Meio tímida e ainda tonta pela explosão a formiga sem nome se sentiu atraída por aquela música alucinante, aquelas luzes que causavam efeitos visuais nunca antes vistos e resolveu participar da festa. Mas ao entrar foi abordada por um segurança que foi logo dizendo: - Seu nome, por favor...

Sua face corou, suas mãos começaram a suar, sentiu um calafrio em todo seu exoesqueleto... não sabia o que responder,alias, em toda sua vida nunca soube, tinha respostas para todas as perguntas, menos para essa..justamente isso o maldito segurança queria saber?? Não poderia perguntar o número de seu tênis,  a sua idade, altura, peso, qualquer outra coisa?? Mas não... ele queria o nome...mas por que um nome?

 

 

Por Respaldo & Providência

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